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Heroes in the Field – Ed. #3: gerenciamento de suprimentos com Andreia Pereira

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São dez horas da manhã e Andreia já fez a ronda diária por todos os três andares do escritório onde trabalha. Já checou os papéis das impressoras, as salas de reunião, já alimentou os gatos – mascotes da companhia –, depois de tê-los achado escondidos por aí. Neste momento, ela já está na copa, checando se alguma colega precisa de ajuda. Em breve, irá sentar em sua mesa, abrir a planilha de Excel e iniciar o controle de estoque da semana: fica sob sua responsabilidade, como auxiliar de Facilities, o gerenciamento dos suprimentos do escritório. Às 17h, ela vai se colocar com pressa no caminho de casa: por recomendação médica, passou a frequentar, todos os dias, uma academia perto de onde mora.

‍É comum eu cruzar com Andreia quando chego no escritório. Eu também mantenho uma rotina de passar pela copa, pegar uma fruta, pedir um café e sentar à mesa para, então, começar a trabalhar com calma. Apesar dos encontros diários, só recentemente eu dediquei um tempo para conversar com ela e conhecer um pouco sobre sua história e seu dia-a-dia.

‍Andreia acorda sempre às 04h20 da manhã. Como mora em Duque de Caxias, município localizado na Baixada Fluminense, a 16km do Rio de Janeiro, são necessárias duas horas – e dois ônibus – para chegar até o escritório, situado na Barra da Tijuca. Sai de casa, portanto, às cinco – sempre com o cabelo preso em coque, pela praticidade do penteado, rímel e lápis nos olhos – e pontualmente, às oito, começa a trabalhar. Essa rotina começou há quatro anos, em março de 2019, quando iniciou na companhia como parte do time de limpeza.

‍Ela conta que, antes disso, trabalhou por sete anos em um hospital infantil, seu primeiro emprego. Lá, também integrou a equipe de serviços gerais, trabalhando no centro cirúrgico e no CTI. Durante esse período, cursou o técnico em enfermagem, inspirada não só pelos profissionais que via diariamente, como também por sua avó – Elza.

‍Nascida em uma família de seis meninas, sendo ela a quarta filha, Andreia foi criada pela avó paterna – umas das pessoas, segundo ela, mais importantes de sua vida. Elza lhe ensinou valiosas lições de resiliência por, entre outras coisas, ter criado sozinha os três filhos. Quando adoeceu, vítima de um tumor na perna, foi Andreia quem cuidou dos curativos, quem lhe deu banho e ofereceu todo o suporte que a avó necessitava. Assim, viu nascer o desejo de se profissionalizar e atuar como enfermeira.

‍A realidade da profissão, no entanto, fez Andreia mudar os planos. Com dois filhos pequenos, ela entendeu que precisaria trabalhar em dois empregos para ter um salário que cobrisse todas as despesas. A preocupação em estar presente na criação e no dia-a-dia das crianças também foi um fator importante para buscar outros caminhos profissionais. Assim, após sete anos, passou a atuar como atendente de caixa em um supermercado; depois, voltou ao setor de limpeza e, na sequência, indicada por uma amiga, começou a trabalhar no Hurb. Em 2021, foi promovida e deixou o time original para ocupar o atual cargo na equipe de Facilities da companhia.

‍Ela fala com empolgação sobre os últimos anos, já que concluiu outros dois cursos desde que chegou à empresa. Estudou técnico em administração, sempre às segundas e quartas em Duque de Caxias, ao mesmo tempo em que cursava o técnico em informática, às terças-feiras após o expediente. No contexto de uma rotina agitada, ela diz que o maior desafio foi o desenvolvimento do TCC – trabalho de conclusão de curso em administração: por vezes, se sentiu nervosa, chorou e contou com o apoio dos colegas do time de Facilities para seguir em frente.

‍Minha conversa com Andreia também é marcada por falas mais duras. Vindo de uma família miscigenada, ela me conta que sofreu muito preconceito por não se parecer fisicamente com o pai. Esses episódios, anos mais tarde, se repetiram na relação entre ela e seu filho mais novo: quando o bebê tinha poucos meses, ficou doente e precisou de uma consulta no hospital. Lá, questionaram se Andreia seria a babá da criança. A criação de Kevin, hoje com 23 anos, e Cauã, de 19, atravessou outros momentos delicados.

‍Andreia experimentou episódios de violência doméstica, muitos dos quais lembrados ainda hoje por seu primogênito. Aos 22 anos, perdeu o marido de forma súbita e violenta e, logo depois, foi diagnosticada com depressão. Desde o auxílio com a detecção da doença até o cuidado com as crianças para que pudesse trabalhar, a família foi fundamental para que Andreia atravessasse o período. Ela conta, no entanto, que foram os filhos os verdadeiros responsáveis por sua cura. “Trabalhei por eles, lutei por eles”, ela me diz.

‍A pandemia de Covid-19 trouxe outros desafios e um novo diagnóstico: ansiedade. O medo de se infectar com o coronavírus, associado às incertezas características daquele momento, causavam em Andreia sentimentos frequentes de mal-estar. Em um desses episódios, foi atendida por profissionais especializados em psiquiatria e psicologia, que puderam detectar o transtorno – que atinge outros 18 milhões de brasileiros. Andreia conta que, mesmo medicada, sofre com crises eventuais. Os exercícios físicos diários, no entanto, têm se mostrado excelentes aliados.

‍Hoje, aos 40 anos, ela vislumbra uma carreira no setor de RH – já que sua paixão é trabalhar com pessoas. Fora do aspecto profissional, Andreia celebra a jornada do filho mais velho, hoje casado, e do mais novo, que pretende cursar design gráfico na faculdade. Andreia se casou novamente e, com o marido, adora frequentar shopping centers e praias nos momentos de lazer. Os finais de semana são dedicados também a maratonar séries no Netflix, ouvir música, tomar uma cervejinha e reunir a família: apesar de ser a única das irmãs que mora em Duque de Caxias, as seis se encontram com frequência.

‍Quando iniciei o bate-papo com Andreia, francamente imaginei que o assunto se resumiria aos desafios de conciliar a jornada de trabalho com os estudos. Os episódios de sua vida, gentilmente compartilhados comigo, me surpreenderam e fizeram eu enxergar o amor incondicional que ela dispensa aos filhos, sua resiliência e força interior. Não são suas cicatrizes que falam mais alto, e sim sua determinação e clareza. Sua história é um lembrete de como a perseverança pode moldar um futuro brilhante.

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